11 abril 2013

Ética e inclusão.

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A análise de grande parte das propostas de ação educacional visando à inclusão, revela, habitualmente, dimensões éticas conservadoras, baseadas na lei natural e/ou em leis escritas e promulgadas.
Essas políticas, no geral, expressam-se pela tolerância e pelo respeito ao outro, que são sentimentos que precisamos avaliar com cautela, para entender o que podem esconder em suas entranhas...
A tolerância, um sentimento aparentemente generoso, pode marcar uma certa superioridade de quem tolera. O respeito pode implicar um certo essencialismo, uma generalização, vinda da compreensão de que as diferenças são fixas, definitivamente estabelecidas, de tal modo que só nos resta respeitá-las.
As propostas político-educacionais entendem que as deficiências estão fixadas no indivíduo, como se fossem marcas indeléveis, a partir das quais só nos resta aceitá-las, passivamente. Essas pessoas estão fadadas à predição de que pouco ou nada evoluirão, além do que está previsto no quadro geral das especificações estáticas de seus níveis de comprometimento, categorias educacionais, quocientes de inteligência, predisposições para o trabalho e de outras tantas mais.


Consoante a esses pressupostos é que criamos as instituições especializadas e os espaços educacionais protegidos e à parte, restritos a determinadas pessoas, a quem denominamos, eufemisticamente, Portadoras de Necessidade Educacionais Especiais – PNEE.
Nessas instituições, a diferença está sempre no outro, que é separado de nós para ser protegido ou para nos protegermos dele! Nestes dois casos, somos impedidos de realizar e de conhecer a riqueza da experiência da diferença e da inclusão. Estamos junto deles, mas não estamos com eles.
Os perigos que antevemos do uso de pressupostos jurídicos positivistas e de leis naturais vindas de Deus na constituição e no comportamento das instituições que atendem a pessoas com deficiência se evidenciam, quando essas instituições apelam para os sentimentos, para a caridade pública, a fim de manter seus assistidos. Os professores que atuam nessas instituições são reconhecidos como seres abnegados, santificados em vida, servidores do bem, que se dedicam aos menos dotados e aos que precisam de compreensão e de espaços especiais para sobreviverem. A mesma distinção é atribuída aos seus pais e a todos os que se colocam a serviço dessas pessoas especiais.
A ética em sua dimensão crítica e transformadora referenda as iniciativas em favor da inclusão escolar. Esta posição é oposta à anterior e entende que as diferenças estão sendo constantemente feitas e refeitas, pois “As diferenças vão diferindo”, como nos lembra François Jacob.
As ações educativas inclusivas, nessa perspectiva ética, têm como eixos: o convívio com as diferenças e a aprendizagem como experiência relacional, participativa, que produz sentido para o aluno, pois contempla a sua subjetividade, embora construída no coletivo das salas de aulas.
Relações de poder continuam presidindo a produção das diferenças na escola, mas agora, a partir de uma lógica que não mais se baseia na igualdade, como categoria assegurada por princípios liberais, inventada e decretada a priori. Renegam-se essas concepções, que sustentam a ilusão da homogeneidade, promovem e justificam a fragmentação do ensino escolar em disciplinas, modalidades seriações, classificações, hierarquias de conhecimentos.
A inclusão é um conceito que emerge da complexidade, da ideia de trama, de tecido, que nos propõe Morin (2001). Implica o entrelaçamento entre as diferenças humanas, o contato e o compartilhamento dessas singularidades. A complexidade, assim entendida, esbarra na necessidade de reforma do pensamento e da escola e atinge a formação dos professores, de modo que possam ser capazes de ministrar uma educação plural, democrática e transgressora.
Esse movimento provoca uma crise de identidade institucional, que, por sua vez, abala a identidade dos professores e faz com que seja ressignificada a identidade do aluno.
A dimensão ética crítica e transformadora da inclusão faz desse aluno um outro sujeito liberado dos modelos ideais, permanentes, essenciais em que a lógica conservadora da escola o aprisiona. Fonte

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